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Quando ensinar deixa marcas: de professora e aluna a colegas de profissão
Foto Divulgação
Em 2003, Loreci Alves Marins era estudante da 5ª série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Pedro Pasqualotto, em Carazinho. Entre as disciplinas que faziam parte de sua rotina estavam as aulas de inglês da professora Margarete Müller, marcadas por atividades criativas, dedicação e uma relação de carinho e respeito. Mais de duas décadas depois, a antiga aluna e sua professora dividem os corredores da mesma escola, mas agora como colegas de profissão.
A história das duas é um exemplo de como a educação pode estabelecer vínculos que ultrapassam o período escolar. Neste 15 de outubro, Dia do Professor, o reencontro profissional de Margarete e Loreci também representa uma oportunidade de refletir sobre a influência dos educadores na formação de seus alunos e sobre os desafios de quem escolhe o magistério.
Para Margarete, o desejo de ensinar surgiu ainda na infância. Ao longo de sua formação, encontrou professores que serviram de inspiração e a incentivaram a seguir esse caminho. Anos depois, passou a ocupar o mesmo papel na vida de outros estudantes, entre eles Loreci.
A professora guarda lembranças da antiga aluna, que se destacava pela dedicação e pelo interesse nas atividades escolares. “Era muito tranquilo ser sua professora, afinal, estava sempre disposta a aprender e a progredir na sua trajetória estudantil. Lembro-me com muito carinho e admiração da sua postura sempre atuante, estudiosa, respeitosa e colaborativa”, recorda Margarete.
Para ela, algumas relações construídas durante o exercício da profissão permanecem na memória. “Há estudantes que passam pelas nossas vidas e deixam marcas inesquecíveis. A Lore é, sem dúvida, uma dessas pessoas.”
As lembranças que permanecem
Loreci também conserva recordações das aulas de inglês ministradas por Margarete. Uma delas é a apresentação teatral intitulada “A Mouse in the Class”, desenvolvida durante as atividades escolares. “A professora Marga era minha teacher e nossas aulas de inglês eram recheadas de criatividade. Eu nunca esqueci um teatro que fizemos. Nossas aulas eram produtivas, divertidas, pois a Marga sempre foi atenciosa e querida”, conta.
Embora tenha decidido seguir a carreira docente quando começou a estudar as classes de palavras nas aulas de português da 6ª série, Loreci reconhece que a convivência com seus professores teve influência importante em sua formação. “Eu decidi ser professora quando comecei a ter aulas de português, na 6ª série, sobre as classes de palavras. Aquilo me fascinou e eu não mudei de ideia desde então”, relata.
Entre as experiências que marcaram sua trajetória escolar, uma delas permanece especialmente significativa. Na época, Loreci e sua irmã foram escolhidas para participar de uma viagem a Porto Alegre destinada aos alunos que se destacavam na escola. No entanto, as dificuldades financeiras da família poderiam impedir a participação das duas.
Foi então que as professoras se mobilizaram e contribuíram para que as irmãs pudessem realizar o passeio. “Nossos pais não iriam permitir o passeio a Porto Alegre, por questões financeiras. As nossas professoras se mobilizaram e contribuíram para que pudéssemos ir. Penso que todos os esforços que faço hoje, na rede pública, são fruto, sem dúvidas, desse gesto”, afirma.
A lembrança revela uma dimensão do trabalho docente que vai além da transmissão de conhecimentos. Para Loreci, a atenção individualizada e o compromisso demonstrados pelos professores também contribuíram para a maneira como passou a compreender a educação.
“A profe Marga sempre ensinou com carinho, atenção, domínio de conteúdo e de sala de aula. Sempre que olho para trás, percebo que a forma individualizada como ela olhava cada um de nós me fez achar também meu próprio caminho como aluna e futura profissional.”
Quando a antiga aluna se torna colega
Atualmente, Margarete e Loreci trabalham na mesma escola onde essa história começou. Desde o período da pandemia, compartilham o planejamento das disciplinas que lecionam. Margarete atua com turmas do 6º e 7º ano, enquanto Loreci trabalha com estudantes do 8º e 9º ano.
Os projetos pedagógicos são desenvolvidos em conjunto, permitindo que as duas compartilhem experiências, conhecimentos e ideias para o cotidiano escolar.
“Hoje, sinto-me privilegiada em ser colega dessa professora amada na EMEF Pedro Pasqualotto. Mais ainda, me sinto grata pela oportunidade de trabalhar com ela e motivada. Nossos projetos são realizados em conjunto e é sempre uma grande alegria planejarmos nosso ano letivo”, destaca Loreci.
A relação entre as duas também mudou com o passar dos anos. Se antes era marcada pelo vínculo entre professora e estudante, hoje inclui a amizade e a parceria profissional. “Eu nunca esqueci nenhum professor, guardo todos com carinho e sempre que os encontro, ainda os chamo de professor. A Marga não, somos colegas, amigas”, conta Loreci.
Para Margarete, acompanhar a trajetória profissional da antiga aluna é motivo de satisfação. Ela destaca o crescimento de Loreci, que alcançou o doutorado e hoje compartilha seus conhecimentos com estudantes e colegas.
“Eu me sinto honrada de ser colega da Lore, sinto um orgulho imenso por fazer parte da sua história, de acompanhar a sua ascensão profissional e testemunhar a sua brilhante carreira docente”, afirma.
Os desafios de ensinar e os sonhos que permanecem
Apesar das lembranças afetivas e da satisfação com a profissão, as duas professoras também reconhecem as dificuldades enfrentadas diariamente nas escolas.
Margarete aponta a sobrecarga de trabalho, as demandas burocráticas, a mediação de conflitos e a indisciplina entre os principais desafios da atividade docente. Ao comparar diferentes momentos de sua carreira, lembra que, quando Loreci era sua aluna, a ausência dos recursos tecnológicos disponíveis atualmente também dificultava o planejamento e a realização das aulas.
Loreci, por sua vez, destaca a falta de motivação de parte dos estudantes e a necessidade de maior participação das famílias no acompanhamento da vida escolar. “Muitos alunos vêm às aulas sem material, sem realizar as tarefas de casa e, quando há reuniões, os pais dificilmente comparecem”, observa.
As duas também compartilham o desejo de maior valorização da profissão. Para Loreci, esse reconhecimento precisa começar dentro das famílias, com maior acompanhamento da educação dos filhos, e alcançar o poder público, por meio de remuneração compatível com as responsabilidades do magistério.
Margarete amplia essa reflexão ao defender condições adequadas de trabalho, ambientes escolares seguros e respeito aos profissionais da educação. Entre seus sonhos está contribuir para a formação de pessoas autônomas, confiantes, empáticas e capazes de transformar a própria realidade.
Um legado que continua na sala de aula
A trajetória de Margarete e Loreci reúne duas gerações de professoras que, em momentos diferentes, escolheram dedicar suas vidas ao ensino. Uma encontrou na profissão a realização de um sonho de infância. A outra descobriu o desejo de ensinar enquanto ainda ocupava uma carteira escolar.
Hoje, ambas compartilham o mesmo ambiente de trabalho, planejam atividades e enfrentam desafios semelhantes, mantendo uma relação construída há mais de 20 anos.
Para Margarete, o exemplo de um professor pode influenciar os caminhos escolhidos pelos estudantes, seja pelo entusiasmo demonstrado nas aulas, pela maneira de tratar cada aluno ou pelo compromisso com a profissão.
A história das duas mostra que a influência de um educador nem sempre pode ser medida apenas pelos conteúdos ensinados ou pelos resultados de uma avaliação. Às vezes, ela permanece em uma atividade que nunca foi esquecida, em uma oportunidade oferecida ou no cuidado demonstrado em um momento de dificuldade.
E, em algumas histórias, essa influência retorna à própria escola, quando uma antiga aluna passa a ocupar o lugar de professora, trabalhando ao lado de quem um dia contribuiu para sua formação.