CULTURA
Com quase um século, Ourivesaria Kreutzer simboliza preservação do patrimônio histórico em Carazinho
Rodolpho Kreutzer e a filha Wanderlise com alguns objetos que fazerm parte da história da loja (Foto Mara Steffens/O Correspondente)
A história da Ourivesaria Kreutzer se mistura com a própria história de Carazinho. Fundada em 1927, quando a cidade ainda era distrito de Passo Fundo, a loja atravessou gerações, acompanhou o crescimento do município e até hoje preserva lembranças de uma época importante. Na próxima segunda-feira (17), data em que se celebra o Dia do Patrimônio Histórico, o prédio onde a loja funcionou até bem pouco tempo será palco para atividades da Fundação Cultural de Carazinho - Fuccar, alusivas a data.
De acordo com informações repassadas por Rodolpho Walter Kreutzer e a filha, Wanderlise Neuls Kreutzer de Quadros, a trajetória da família Kreutzer no Brasil começou em 1898, com a chegada do pastor Richard Wilhelm Kreutzer e da esposa Hedwig Alwine Felsch Kreutzer, vindos da Alemanha. Um dos filhos do casal, Walter Frederico Conradino Kreutzer, aprendeu ainda jovem a profissão de ourives e, anos depois, veio para Carazinho.
Rodoplho, inclusive, começou a trabalhar na empresa assim que cumpriu o serviço militar obrigatório, em 1949. Com formações na área da contabilidade e da ótica, ele também desempenhou estas funções e com o passar do tempo, assumiu o negócio.
Em 1º de julho de 1927, Walter e Januário Falleiro deram início à Ourivesaria Kreutzer & Falleiro. O primeiro endereço ficava na então Rua do Comércio, atual Avenida Flores da Cunha, próximo ao Banco Pelotense. Pouco tempo depois, a loja viveu um dos momentos mais marcantes de sua história. Em 1928, um incêndio atingiu praticamente toda a quadra, formada em grande parte por casas de madeira. Para evitar que o fogo chegasse ao prédio do banco, a estrutura onde funcionava a ourivesaria precisou ser desmontada às pressas.
Móveis, ferramentas, joias e mercadorias foram retirados e colocados na rua. Depois disso, a empresa ainda enfrentou outro problema: a nova sede foi arrombada e grande parte do estoque acabou sendo levada. Mesmo diante das dificuldades, a ourivesaria continuou. Entre 1928 e 1929 foi construído o prédio de alvenaria onde a empresa passou a funcionar e que permanece até hoje na Avenida Flores da Cunha.
No local eram produzidas joias, bombas de chimarrão, facas de prata, bocais de cuia e outros artigos. Com o passar do tempo, a loja também passou a trabalhar com instrumentos musicais e acessórios. Entre os produtos vendidos estavam acordeões, gaitas de boca, pandeiros, escaletas e cordas de violão, cavaquinho e guitarra. Algumas peças e objetos ainda permanecem guardados pela família. Outro destaque era a parte de ótica e joalheira, esta última, tarefa aperfeiçoada pelo irmão mais novo de Rodolpho, Eugênio, que atua até hoje na área.
Uma das histórias lembradas por pai e filha envolve a confecção de uma cuia com pé e uma bomba de chimarrão em outro e prata para homenagear Flores da Cunha, em 1930. Conforme eles, a peça exigiu muito trabalho e foi enviada posteriormente para Porto Alegre.
Ao longo dos anos, a Ourivesaria Kreutzer se tornou conhecida também fora de Carazinho. Clientes vinham de cidades como Não-Me-Toque, Santa Bárbara do Sul, Cruz Alta, São Jorge, Almirante Tamandaré do Sul, Santo Antônio do Planalto e Coqueiros do Sul. Em 1952, com a saída de Januário Falleiro da sociedade, Walter continuou sozinho a frente do negócio. Após sua morte, e 1986, a continuidade ficou com o filho Rodolpho Walter Kreutzer.
A loja seguiu funcionando por muitos anos e foi diminuindo as atividades aos poucos. Até a pandemia, ainda abria com frequência. Depois disso, o funcionamento foi sendo reduzido até o encerramento da atividade.Mesmo com a loja fechada, o prédio e muitos objetos ainda ajudam a contar essa trajetória. Os objetos que ainda estão a venda, estão guardados em outro imóvel que pertence a família.
Orgulho para a família
Para Wanderlise, a escolha da Ourivesaria para atividades que valorizam o patrimônio histórico representa uma grande honra para a família. Segundo ela, a história da loja e da cidade acabam caminhando juntas. A Ourivesaria começou em 1927 e outras instituições importantes de Carazinho também surgiram naquele período, como o Instituto Carlos Gomes, fundado em 1928.
Wanderlise destaca ainda a importância de preservar alguns prédios antigos da cidade. “O progresso precisa vir, mas ele não pode simplesmente apagar o que já foi. Algumas coisas precisam permanecer. O povo precisa ter memória, precisa saber de onde veio para saber para onde vai”, afirma.
A família também estuda a possibilidade de, futuramente, realizar algum tipo de restauro no prédio. A ideia é preservar as características históricas, mas sempre levando em consideração a segurança da construção. Para Wanderlise, manter esses espaços é uma forma de fazer com que as novas gerações também conheçam um pouco mais do passado de Carazinho.
Hoje, mesmo sem a movimentação que teve durante décadas, a antiga Ourivesaria Kreutzer continua sendo um daqueles lugares que carregam história. Um prédio que acompanhou transformações, viu a cidade crescer e ainda guarda memórias de quase 100 anos.
Programação da Fuccar
Com o tema “O Tempo Mora Aqui”, as atividades serão realizadas no dia 17 de agosto de 2026, das 13h30 às 17h30, tendo como cenário um importante espaço da memória comercial do município: o prédio da Ourivesaria Kreutzer.
Conforme Juliani Mazzuti, presidente da FUCCAR, durante a tarde o público poderá participar de diferentes ações que buscam aproximar a comunidade da história de Carazinho. A programação contará com exposição de fotografias antigas do município, documentos históricos, objetos, lançamento de material sobre a história da Ourivesaria Kreutzer e a exposição fotográfica “O Olhar do Tempo”.
A proposta, segundo Juliani, é fazer com que as pessoas passem a observar a cidade de uma maneira diferente, percebendo que prédios, estabelecimentos, fotografias, objetos e espaços presentes no cotidiano também carregam histórias.
A escolha da Ourivesaria Kreutzer para receber a programação ocorreu justamente pela importância do local para a memória de Carazinho. A iniciativa pretende fazer com que a comunidade reconheça esse patrimônio e conheça um pouco mais das histórias que fazem parte do desenvolvimento do município.
Rodolpho em meio a loja que vendia muitos objetos curiosos e até instrumentos musicais (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)