CULTURA

EXCLUSIVO: Manuscrito do primeiro prefeito de Carazinho traz relato de bastidores da emancipação

Foto Reprodução/Carline Nimuth

 

O Correspondente recebeu nesta segunda-feira (26) uma raridade, um manuscrito do primeiro prefeito de Carazinho, Homero Guerra, em que ele relata bastidores da emancipação de Carazinho. O documento estava em um cofre da família e foi encaminhada por Félix Guerra, filho de Homero, para o filho Henrique. 

 

O relato foi escrito pelo primeiro prefeito, a pedido do prefeito da época, Ernesto Keller, na década de 1970, com a intenção de ser lida na antiga Rádio Carazinho. Entendendo o valor histórico do texto, Paulo Guerra, também filho de Félix, encaminhou ao Correspondente para ser partilhado com os carazinhenses.  

 

Acima, o manuscrito digitalizado por Carline Nimuth. Abaixo, a transcrição do documento feito por Henrique Guerra. 

 

"Honrado com o convite do Exmo. Snr. Prefeito Municipal, Dr. Ernesto Keller, para, através do microfone amigo da Rádio Carazinho, tratar da vida do município em sua fase inicial, devo pedir desculpas aos ouvintes por não fazer um relato melhor do assunto e mais digno da comemoração da criação do município. Faltou-me tempo para rever arquivos e consultar documentos, e valho-me agora apenas da memória, nem sempre fiel como seria de desejar.

 

Desde antes de minha mudança para Carazinho em 1927, já estava ao par das lutas deste povo por seu vilamento. Duas tentativas haviam sido feitas sem maior êxito porque seus autores não conseguiram vencer fortes interesses contrários. O prestigioso chefe republicano Dr. Nicolau Vergueiro e outros políticos de Passo Fundo opunham-se tenazmente à criação do município.

 

Fomentaram uma artificial rivalidade entre Carazinho e Não-Me-Toque. Propalava-se que o progresso de Carazinho devia-se a Não-Me-Toque. A criar-se um município, a sede devia ser em Não-Me-toque.

 

Prometeram construir um ramal ferroviário de S. Bento a Não-Me-Toque, não para realizá-lo, mas para alimentar a rivalidade. Assim conseguiu-se dividir para governar e arrefecer o ânimo dos emancipadores.

 

Quando em 1929 Paulo Coutinho convidou-me para renovar o movimento municipalista, aceitei-o com entusiasmo. Foi então constituída a comissão, composta de Paulo Coutinho, dr. Eurico Araújo, Cel. Salustiano de Pádua, Cel. Alberto Graeff, Guilherme Sudbrack, Alberico Azevedo e eu. A comissão visitou todo o interior e conseguiu assinaturas de aderentes ao movimento.

 

O apoio popular recebido excedeu à nossa expectativa. Com surpresa verificamos que a rivalidade Carazinho – Não-Me-Toque não tinha nenhuma consistência. Recebemos em Não-Me-Toque um apoio popular idêntico ao de outras zonas do interior.

 

Animados com a sondagem da opinião pública, procuramos o apoio do chefe do Partido Republicano, Dr. Borges de Medeiros, a quem Paulo Coutinho e eu visitamos em sua fazenda de Irapuazinhoii para onde nos dirigimos em acidentada viagem de automóvel pelos caminhos quase intransitáveis da época.

 

O Dr. Borges deu-nos seu apoio e orientou-nos sobre as providências a tomar e os estudos a realizar para o êxito de nossa missão.

 

Voltando, continuamos a campanha e a opinião pública então estava mobilizada quando eclodiu a Revolução de 1930. Em Carazinho montou-se junto à estação ferroviário o Barracão Liberal, onde os soldados e oficiais da revolução foram servidos gratuitamente com farta alimentação e especialmente cercados de carinho e simpatia.

 

O Barracão Liberal teve larga repercussão e nele foram recebidos em sua marcha para o norte o Dr. Getulio Vargas, General Flores da Cunha e sua comitiva. O Dr. Getulio incumbiu o Gal. Flores da Cunha de prometer em seu nome a emancipação.

 

Proferiu o Gal. Flores um eloquente e memorável discurso que foi recebido com intenso júbilo pelo numeroso público que acorrera à estação ferroviária.

 

Vitoriosa a revolução e nomeado Flores da Cunha interventor apressamo-nos a cobrar a dívida.

 

Levamos ao interventor um memorial com um projeto de município constituído de toda a região geoeconômica que convergia para Carazinho.

 

Em constantes viagens a Porto Alegre assentamos todas as bases do empreendimento.

 

Já nas vésperas da data fixada para a lavratura do decreto, o Gal. Flores telegrafou-nos chamando a comissão a Porto Alegre.

 

Antes de atendermos ao chamado já se propalava à boca pequena que o município seria criado com exclusão de Não-MeToque e Tapera.

 

Com efeito o Dr. Vergueiro convencera o Gal. Flores de que nós lhe íamos impor a inclusão de Não-Me-Toque e Tapera, quando simplesmente essas regiões estavam incluídas no pedido.

 

Lá chegados e recebidos com aspereza pelo Gal. Flores da Cunha, disse-me ele:

– Sei que vocês vêm aqui impor-me a inclusão de Não-MeToque e Tapera, mas fiquem sabendo que não aceito imposições. Vou criar o município com exclusão de Não-Me-Toque e Tapera.

 

Hoje esses então distritos de Passo Fundo constituem prósperos municípios tirados de Carazinho, que por sua vez prospera sem eles. Na ocasião, porém, a sua exclusão faria fracassar o novo município.

 

Convencido disso respondi:

– Não viemos aqui impor cousa nenhuma, nem temos autoridade para tal. Sabemos porém que a exclusão de Não-MeToque e Tapera importará na criação de um município inviável. Vossa Excelência pode criá-lo, mas com a sua responsabilidade. Nós retiramos o pedido da criação do município.

 

Irritado o General num gesto impulsivo atirou violentamente os papéis do expediente à mesa dos despachos, dizendo:

– Quero ver-me livre deste desagradável assunto!

 

E mandou que nos retirássemos.

 

A tudo isso estava o Dr. Vergueiro em outra sala aguardando o desfecho do caso, certo talvez do êxito de sua cartada.

 

Soubemos depois que na ocasião houve o rompimento de relações entre o General e o Dr. Vergueiro.

 

Em consequência mandou o General lavrar o decreto tal qual pleiteávamos.

 

Criado o município, coube-me, por indicação do Dr. Borges, a função de seu primeiro prefeito.

 

Só aceitei o cargo como um dever que me era imposto e nele procurei servir da melhor maneira que me era possível ao admirável e generoso povo em cujo seio resolvera viver.

 

Não cabe aqui, para não alongar este relato, dizer o que fiz e o que não pude realizar.

 

Quero para finalizar deixar constante a minha fé nos elementos humanos com que conta o município para resolver seus problemas velhos e novos, através da experiência de acertos e de erros, mediante o estudo de ambos, seguindo uns e evitando outros". 

 

Data: 26/01/2026 - 18:44

Fonte: Mara Steffens

COMPARTILHE