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DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: A trajetória da professora carazinhense que enxerga a educação como ferramenta de transformação de vida

Foto Divulgação/Arquivo Pessoal

 

Hoje professora da rede pública e particular em Carazinho, Loreci Maris foi incentivada a estudar desde muito pequena. Mesmo quando ainda não tinha a idade escolar, ela deseja muito ir para a escola, mas teve que esperar pacientemente a época para frenquentar na escola. E foi lá, na EMEF Pedro Pasqualotto, no sexto ano, que ela despertou para o magistério. "Tive excelentes exemplos. Minha vida mudou quando trocou a professora de português e conhecendo a professora Elisabete Ozelame de Lima me apaixonei pela lingua portuguesa. Me lembro como se fosse hoje. Eu olhava para ela e dizia a minha mesma que me formaria em letras, sem ter noção para onde iria, ou como eu faria isso", recorda. 

 

O sonho se tornou realidade. Fez ENEM e conseguiu bolsa 100% pelo Prouni, formando-se na Universidade de Passo Fundo. Hoje ela é colega dos professores que a inspiraram e voltou a EMEF do bairro Medianeira, agora como professora. Assim que encontrou na faculdade fez estágios. Passou um período na rede estadual em Passo Fundo e Carazinho. Atualmente, concursada na rede municipal de Carazinho, concilia as turmas na escola pública e em uma escola da rede particular em Carazinho. 

 

Apaixonada pelo que faz, a profe Lore como é mais conhecida, nunca deixou de estudar, mesmo quando se tornou mãe. Fez especialização, mestrado e atualmente é doutoranda em letras. No fim do ano que vem se tornará doutora. "Ao longo dessa trajetória eu percebi a necessidade de ocupar meu lugar de fala, enquanto mulher e negra. No meu mestrado foquei o trabalho no escritor gaúcho Josué Guimarães, mas percebi que, quando iniciei o doutorado, que não era suficiente. Eu precisava trilhar um novo caminho. Então tive acesso a um livro chamado 'Um Defeito de Cor', da Ana Maria Gonçalves. A partir dele e de um projeto que eu já trabalhava no colégio, intitulado 'Vozes Negras', precebi que era a hora de ocupar meu espaço na pesquisa voltada para personagens femininas e negras, de autoria de mulheres negras", relata. 

 

O trabalho de doutorado de Lore é voltada para a geografia literária. "Meu trabalho mapeia as relações que se dão a partir desta obra, que é fundamental. A Ana Maria Gonçalves acada de entrar para a Academia Brasileira de Letras. A obra dela registra a vida de uma personagem capturada no continente africano e trazida para o Brasil ainda na infância. É um retrato do que foi o Brasil e que não deve ser esquecido", sublinha. 

 

A educação como ferramenta de transformação 

"Sou fruto da escola pública. Eu tenho paixão pela escola pública porque foi nela que percebi a união do discurso dos meus pais com o que a escola ofertava Isso me cativou. Eu vejo a educação como transformadora. Vejo como algo que deve se agarrar e construir nossa base a partir dela", reflete a professora quando analisa sua trajetória profissional. 

 

No final na graduação, ela e tornou mãe, mas buscou conciliar a maternidade com os estudos porque entendeu o quanto isto seria importante. "Não fiz da maternidade um obstáculo e não me eximí de correr atrás do que eu queria, embora a gente sabe que enquanto mãe a jornada não é só dupla, é quadrupla... Mas apesar de tudo continuei acreditando no poder da educação. Em grande parte ela é responsável pelas boas transformações", comenta. 

 

O fato de lecionar na escola em que estudou é muito especial para Lore. "Eu passei no concurso e fui para a João Goulart e Castelo Branco. Atuei na Rufino, na João XVIII e no CAIC. Na pandemia peguei umas turmas na Pedro Pasqualotto. Voltar para a escola onde tudo começou é um privilégio. É minha escola do coração. Minha irmã mais velha foi da primeira turma da escola, minha outra irmã também estudou lá", orgulha-se. 

 

20 de Novembro

Sobre o Dia da Consciência Negra, a professora reflete que se trata de um marco importante. "Vejo como algo positivo porque nosso país tem dificuldades de lembrar do passado. Fomos o último país a abolir a escravidão, temos 56% de população negra, e ainda assim sermos rotulados como minoria. Somos o país com mais negros fora do continente africano, mas não temos um museu da escravidão. Nosso país insiste no apagamento. Vivemos este momento, com este marco simbólico, com uma lei que obriga o ensino da cultura afro nas escolas desde 2003, é uma proposta para discussão o ano todo. Este é o ideal para que o assunto que não deve se restringir somente ao racismo. Temos que dar o lugar de fala, para aumentar o significado e que é importante para que não seja esquecido e a longo prazo não seja somente uma única data", frisa. 

 

Para a professora, ainda é preciso avançar para que haja menos racisco porque o Brasil nega ser um país racista e ao mesmo tempo possui um número de denúncias de casos que estrapolam isso. "A conta não fecha. Se tem uma população que diz que não é racista, porque o racismo continua acontecendo? Precisa haver uma conscientização maior. As leis recentes caminha para isso, mas vivemos em nossa sociedade um racismo velado, em que muitas vezes a pessoa traz um elogio que na verdade esta baseado em expressões racistas e não percebe que está diminuindo o outro. O racisco ainda está enraizado porque as pessoas associam os negros a posições inferiores, a trabalhos braçais ou ainda quando julgam através da aparência", finaliza. 

Data: 20/11/2025 - 15:19

Fonte: Mara Steffens

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