POLÍTICA

Mesmo com inúmeros problemas envolvendo a empresa, Corsan-AEGEA pressiona município para renovar o contrato até 2062

Foto Divulgação

 

Apesar das obras mal-acabadas, falha no abastecimento e contas abusivas, empresa exige a assinatura do contrato em troca de fazer os investimentos necessários para que o município possa cumprir as exigências do Marco Legal do Saneamento.

 

Nos últimos dois anos – coincidentemente desde a privatização, quando o nome AEGEA se somou a palavra Corsan -, as notícias envolvendo a empresa passaram a estar ligadas a críticas e reclamações. Mesmo quando se fala em investimentos, logo atrás vem o problema com obras mal-acabadas, causando grande transtorno para a população. Por isso, mesmo quando os diretores da empresa vêm até a cidade para inaugurar uma Estação de Tratamento, como aconteceu na última quinta-feira, as cobranças são inevitáveis... E esta foi a pauta da reunião que a direção teve com os vereadores, marcada pela tensão, mas ao mesmo tempo, pela pressão da empresa...


Faca no pescoço
É que por incrível que pareça, enquanto os vereadores cobram por obras que se transformam em crateras, pela falta d´água e pelos preços abusivos das tarifas, a empresa pressiona o Executivo para assinar um contrato que renova a concessão até – pasmem – 2062! É isso mesmo: o contrato vigente, assinado ainda na época da Corsan, vem gerando inúmeros problemas e a empresa já quer fechar outro, e pelo dobro do tempo... Segundo o vereador César Salles (PSB), durante a reunião ficou claro que a AEGEA está literalmente colocando a faca no pescoço dos prefeitos para que assinem o contrato. Tanto que 219 prefeituras já assinaram...


Marco do Saneamento
...Como forma de pressão, a AEGEA vem se utilizando do Marco Legal do Saneamento Básico eu exige a universalização do serviço nos municípios em no máximo oito anos. Em uma espécie de chantagem, a empresa condiciona os investimentos necessários para garantir o cumprimento do Marco Legal à renovação do contrato, que entre outras coisas, em letras miúdas, reduz inclusive a tarifa social. O problema é que se o prefeito não cumprir o Marco Legal pode ser responsabilizado judicialmente. Como a AEGEA é a única empresa que detém o serviço no RS, resta pouca opção para os gestores. É assinar o contrato ou assumir as consequências...


Alternativas
Mesmo assim, na opinião de César Salles, que é um dos vereadores que vem acompanhando de perto o caso da Corsan-AEGEA, o prefeito João Pedro não deve assinar o contrato, e se assinar, deve ser barrado na Câmara. Segundo ele, o Executivo deveria buscar uma solução jurídica ou até mesmo, uma alternativa junto à Famurs, com a criação de um consórcio de municípios que poderia garantir as obras necessárias para o cumprimento do Marco Legal, independentemente da AEGEA. Aliás, é de se perguntar o que a Famurs, como representação máxima dos prefeitos, está fazendo, enquanto os gestores municipais são encurralados pela empresa?


Pressão
... Pressão por pressão, pelo menos em alguns pontos a empresa acabou cedendo à pressão feita pelo Legislativo. Ainda segundo o vereador César Salles, após reunião feita na semana passada em Porto Alegre, com a participação de quatro vereadores, com o diretor da AEGEA, - o carazinhense Fabiano Dallazen -, a empresa cedeu em três reivindicações: a criação de um escritório de gestão em Carazinho, a contratação de uma empresa da região ou local para as obras e ainda a revisão de todas as contas, que serão analisadas caso a caso...


A propósito: enquanto isso, o Executivo protocolou novamente na Câmara, o projeto que prevê a cedência de um imóvel à Corsan...


Tragédia I
Carazinho deveria ter acordado de luto no sábado pela manhã, com bandeiras à meio mastro e decreto oficial de luto por três dias. O final de semana deveria ter sido de silêncio e lamentos por termos perdido parte de um dos nossos maiores e mais preciosos patrimônios na noite anterior... Foram cerca de 50 hectares de vegetação consumidos pelo fogo, com centenas de árvores, algumas centenárias, que dão abrigo a dezenas e dezenas de pássaros e animais silvestres... Uma tragédia sem proporções que só comprova o quanto Carazinho está de costas para o seu maior tesouro, que é o Parque Municipal João Alberto Xavier da Cruz, uma área de preservação permanente, rica em flora e fauna, a menos de 15 quilômetros do centro da cidade...


Tragédia II
Porém, ao invés de lamentos, pouco se falou sobre a tragédia... Apenas algumas notícias na imprensa e uma que outra palavra na sessão da Câmara de Vereadores. Não se trata de apontar culpados. Se o incêndio foi criminoso – e não terá sido a primeira vez – os responsáveis devem ser punidos, o que é da alçada da polícia e da justiça. Mas e qual é a nossa responsabilidade enquanto cidadãos, que, como proprietários, deveríamos ser os guardiões do maior patrimônio de Carazinho para as próximas gerações? O que diremos para os nossos filhos e netos quando eles nos perguntarem por que nos preocupamos mais em instalar câmeras de videomonitoramento nas nossas ruas e esquinas e não nos preocupamos em evitar incêndios criminosos no nosso Parque?


Tragédia III
Ao que cabe ao poder público, o que os gestores do passado e do presente irão dizer para as futuras gerações quando forem questionados do porquê buscaram recursos federais para fazer asfalto e não para proteger o meio ambiente? Carazinho é privilegiado por possuir 206 hectares de área de preservação permanente como patrimônio do município. Porém, o que deveria ser um presente, há muito tempo vem sendo tratado com certo desdém... Uma indiferença que certamente o futuro irá nos cobrar...


Desafio
Por impactar diretamente a vida de toda a população, a questão do lixo é complexa, aliás, pode-se dizer que é um dos maiores desafios das gestões municipais de todo o país atualmente, até porque como diz o ditado não existe “jogar fora”. Para algum lugar, os resíduos devem ir e para isso, alguém deve recolher e dar a destinação correta. Se formos tomar como base as estimativas nacionais que dão conta que o brasileiro produz em média 1,1 quilo de resíduo sólido por dia, um município com 60mil habitantes como Carazinho, produz cerca de 66 toneladas de lixo por dia...O que fazer com tudo isso??


Participação
...Onde armazenar, como, quando e onde recolher são as perguntas que vêm sendo feitas em uma pesquisa coordenada pela comissão criada pela secretaria de Planejamento com o objetivo de a população opinar sobre a questão...Até a metade desta semana, segundo a secretária Munira Awad, cerca de 600 carazinhenses já tinham participado da pesquisa. Isso também é sobre exercer a cidadania. Não adianta só criticar e quando se abrem canais de participação, simplesmente se omitir...


Abrigo
Algumas pessoas estranharam o fechamento do Abrigo Municipal, apenas quarenta dias depois de inaugurado. Portanto, segundo o secretário de Desenvolvimento Social, Fábio Zanetti, o local desde o início foi pensado para ser temporário, sendo que a necessidade é que iria determinar o tempo de funcionamento. Como, de acordo com o secretário, a demanda diminuiu decidiu-se pelo fechamento. Porém, ele garante que o acolhimento continua sendo feito em abordagens nas ruas e, quando necessário, a pessoa é levada para passar a noite em um dos locais conveniados com a Prefeitura. Zanetti afirma que em 40 dias foram realizados 330 atendimentos, quando a pessoa em situação de rua não ganhava apenas um lugar para dormir, mas também alimentos e até atendimento médico.


Funil
O deputado carazinhense Ronaldo Nogueira está investindo na comunicação digital, com publicação de vídeos quase que diários nas suas redes sociais. Tudo de olho em 2026...Além de Carazinho, onde já virou uma questão de honra, ele pelo menos dobrar os 1.400 votos da última eleição, Ronaldo também mira em Porto Alegre, onde fez mais de 4mil votos e na região metropolitana, como Canoas e Cachoeirinha, onde também conseguiu uma boa votação. Outra região que está no radar do deputado é a Serra. Em Caxias do Sul, por exemplo, Ronaldo fez quase a mesma votação que Carazinho, 1.254 votos...De qualquer forma, a eleição pelo RS ficou mais difícil para todo mundo. Com o veto do presidente Lula ao projeto de aumento no número de deputados, o Estado perde duas cadeiras. Ou seja, o funil fica bem mais apertado...


Incoerência (?)
Verdade que a política está cheia de incoerências... Por isso, a princípio, não deveria causar estranhamento um vereador subir na tribuna para fazer duras críticas a um governo que seu partido faz parte, com duas secretarias e cargos. Mas como não devemos naturalizar a incoerência, soaram no mínimo estranhas as críticas bastante duras feitas pelo vereador Alaor Tomaz, do PDT, ao projeto de incentivo ao professor lançado pelo governo Eduardo Leite. Isso não quer dizer que o projeto não mereça críticas. Muito pelo contrário...Premiar aqueles professores que obtiverem mais frequência e aprovações é desconsiderar todos os outros problemas que impactam no desempenho dos alunos, inclusive, a estrutura das escolas. Por tudo isso, como professor, mais do que um discurso inflamado na tribuna, o vereador deveria propor uma Moção de Repúdio ao tal projeto, ou será que isso já seria demais para quem participa do governo?

Data: 22/08/2025 - 08:29

Fonte: Nadja Hartmann

COMPARTILHE