CULTURA
Homenagem póstuma da Semana Farroupilha em Carazinho reconhecerá legado tropeiro de João Hugo da Silva
João Hugo e o filho, Sandro (Foto Divulgação/Arquivo Pessoal)
A homenagem póstuma da Semana Farroupilha 2026 em Carazinho será direcionada a João Hugo da Silva. A definição por parte do CMTG ocorreu há poucas semanas, depois da deliberação das entidades tradicionalistas de Carazinho.
Conhecido carinhosamente como “João do Riso”, por sua gargalhada marcante, João Hugo da Silva faleceu em outubro de 2026, aos 99 anos. Foi um dos grandes nomes do tropeirismo e do tradicionalismo gaúcho. Nascido em Quaraí, em 1925, construiu grande parte de sua trajetória em Carazinho, onde deixou um importante legado de amor ás tradições, conhecimento e dedicação a cultura gaúcha.
Em entrevista ao Correspondente, o filho, Sandro Silva, relembrou momentos importantes da trajetória do pai e destacou o legado deixado por João Hugo para a família, para Carazinho e para o tradicionalismo gaúcho. Segundo ele, a história com as tropeadas começou muito cedo. Aos 9 anos, João Hugo já acompanhava o pai e os tios pelas estradas. Em sua primeira grande jornada, participou de uma viagem que durou cerca de três meses e 28 dias, conduzindo mulas comercializadas no Rio Grande do Sul até Ourinhos, em São Paulo. Foi durante este percurso que completou seus 10 anos.
Nas tropeadas, atuou inicialmente como madrinheiro e, posteriormente, como arribador, função de grande responsabilidade, já que era encarregado de buscar e trazer de volta os animais que se desgarravam da tropa durante o caminho. Ao longo dos anos, João Hugo também teve participação importante no fortalecimento do tradicionalismo em Carazinho. Foi um dos fundadores do CTG Alfredo D’ Amore e teve atuação junto ao CTG Rincão Serrano, CTG Pedro Vargas e Jockey Club Carazinhense, entidades das quais também foi sócio.
Outro momento importante para a história tradicionalista aconteceu em 1963, durante o 9° Congresso Tradicionalista, realizado na Fazenda da Dona Brandina, em Carazinho. O encontro marcou uma fase de expansão do tradicionalismo organizado no interior do Estado e também o início dos torneios de laço na região.
Em 1983, João Hugo fundou o Quadro de Laçadores Piquete Pedro João da Silva, em homenagem ao próprio pai. Reconhecido por suas habilidades, destacou-se pelo Brasil como domador, ginete e laçador, conquistando diversos troféus em rodeios.
Um dos momentos marcantes de sua trajetória ocorreu em 2018, quando, participou, ao lado do então governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, e do deputado estadual Juvir Costella, da assinatura do projeto relacionado ao reconhecimento do tiro de laço como esporte e patrimônio cultural do Estado.
A importância de sua história também ultrapassou os rodeios e as cavalgadas. Sua trajetória inspirou a criação da Semana do Tropeirismo e do Dia do Tropeiro em Carazinho, celebrados no final de abril, período próximo à data de seu aniversário. Seu legado ainda contribuiu para a criação da Associação dos Tropeiros de Carazinho.
Na música, sua história também foi eternizada. Durante a 23ª Seara da Canção Gaúcha, realizada em outubro de 2024, em Carazinho, a canção “Arribador”, criada em homenagem à trajetória de João Hugo como tropeiro, foi consagrada como a melhor canção da Linha Galponeira. A composição tem autoria de Marcelo Mendes e parceiros.
O reconhecimento ao seu legado continua. Em julho de 2026, o poder público municipal oficializou que a Pista de Rodeio do Parque de Exposições Vali Albrecht passaria a levar o seu nome: Pista de Rodeio João Hugo da Silva. Para Sandro Silva, mais do que um tropeiro e tradicionalista, João Hugo representa uma geração que ajudou a construir e manter viva uma parte importante da história do Rio Grande do Sul. "Seu legado permanece nas estradas que percorreu, nos rodeios, nas entidades tradicionalistas, nas histórias compartilhadas e, principalmente, naqueles que seguem levando adiante os valores que ele defendeu durante toda a vida", coloca.
João Hugo da Silva deixa para as próximas gerações um legado de amor, sabedoria, resiliência e orgulho pelas tradições gaúchas. Uma homenagem póstuma e um homem que fez da própria vida parte da história do tropeirismo de Carazinho e do Rio Grande do Sul.