GERAL

Trabalho religioso no Presídio de Carazinho aproxima apenados da fé

Foto Divulgação/Especial O Correspondente

 

A atuação de igrejas nos presídios brasileiros não é algo novo. Tem por objetivo oferecer assistência religiosa, contribuindo para a ressocialização e o desenvolvimento pessoal dos apenados, com eventos como cultos, palestras, cursos profissionalizantes e outros programas. 

 

Em Carazinho esta atuação também ocorre há muito tempo e com o envolvimento de igrejas de várias correntes religiosas. Nesta semana, alguns apenados do Presídio Estadual de Carazinho - PECAR tiveram a experiência do batismo. A inciativa foi da Igreja Batista Boas Novas. Eduardo Haubert Assis é missionário da igreja e atua diretamente no PECAR há algum tempo. Acompanhou de perto a celebração. 

 

Ele conta que duas vezes por semana ele e outros missionários vão ao presídio e convidam os presos das Galerias A e C para a escutar a palavra de Deus e participar os cultos. "A gente vai de cela em cela e faz este trabalho com louvor, com mensagem, com evangelho, lemos a Bíblia.. A gente fica muito feliz porque é o segundo batismo que a gente faz. Três homens entregaram a vida para Jesus, então a gente vê o trabalho dando frutos. Não é fácil, mas é uma missão que Deus nos deu", coloca. 

 

Roberto Ramos é servidor no PECAR e além das obrigações da função, desenvolve outras atividades como a oficina de xadrez. Além de ensinar o esporte aos apenados, aproveita para conversar sobre a palavra Deus e sua importância. "Sugeri que junto do projeto do Xadrez levaria a palavra bíblica, então comecei a trabalhar com o presos um livreto de 30 capítulos. Ao longo de 12 ou 13 aulas, fui ensinando xadrez e trabalhando o folheto. Então no fim, perguntei quais tinham interesse no batismo", relata. 

 

Foi então que surgiu a ideia de convidar a Igreja Batista Boas Novas, que já evangelizava no PECAR, a providenciar o momento. Uma piscina foi instalada no pátio da casa prisional e coube ao Pastor Carlos Fernando Lopes a ministrar o batismo. "É o início de algo. Nós acreditamos que podemos dar seguimento para que mais apenados consigam ter este momento, entenderem a importância da espiritualidade, da fé para suportar a cadeia e principalmente, depois de sair dela, de fato serem pessoas melhores. A sociedade acredita que o preso está em uma hotel cinco estrelas, em uma vida de luxo, às custas das pessoas. De fato estão às custas dos contribuintes, mas a cadeia é o inferno na terra. A realidade é muito diferente do que as pessoas imaginam", diz o agente. "(A Fé) é importante para os presos. A maioria está em uma situação de vulnerabilidade, tirando poucas exceções. A maioria deles tá ali por omissão do Estado,e muitas vezes situações bem piores do que já estava na rua", completa.

 

O depoimento de quem se batizou dentro do PECAR 

Um dos apenados que optou pelo batismo conversou com nossa reportagem para contar a experiência. Condenado há 11 anos por ameaça e agressão, o homem de 38 anos participa da oficina de Xadrez do presídio. Lá começou a se interessar mais pela palavra de Deus e hoje dedica boa parte do tempo para ler e estudar sobre espiritualidade.  "Eu sempre tive o desejo de me batizar, mas o inimigo colocava na minha mente que não era o momento e que não estava preparado e fui deixando para depois. Agora tive a oportunidade aqui dentro, através do professor de Xadrez. Durante as aulas ele ensinava xadrez e estudava a Bíblia. Também participava dos cultos", relatou. 

 

Em 2021, quando foi preso inicialmente por quatro meses, o entrevistado perdeu trabalho e a confiança das pessoas. "Quando cai a primeira vez (referindo-se a prisão), minha mãe me mandou uma Bíblia pequena e uma caneta e comecei a buscar Jesus e percebi que é uma fonte inesgotável porque quanto mais você busca, mais você quer saber. Ela me dizia que não tinha horário. Era só rezar que Deus iria me escutar. Chegou o momento de eu estar fechado na cela e eu pedi para Deus me tirar dali e logo eu fui para uma cela melhor. Ele atendeu meu chamado", contou. 

 

Na mesma cela, o apenado teve contato com outro que tinha conhecimento com teologia, o que contribuiu ainda mais para seu desenvolvimento pessoal. Ele acredita que a partir do momento em que busca a Deus, conquista a proteção Dele. "Quando a gente está estudando, buscando tem uma proteção em volta. Não sei explicar direito, mas é como se você deixasse esse lugar. Esses dias um rapaz me disse 'nossa você assiste este canal que é católico', mas eu acho que posso aprender, independente da religião. Absorvo o que acho importante", colocou. 

 

Questionado sobre como acredita que será sua vida a partir do batismo, o apenado destaca que tem certeza de que nunca esteve sozinho. "Continuo travando minha guerra, de não fazer coisa errada, de não usar drogas, de poder cuidar minha família. Fui dependente químico e só não virei mendigo por causa da minha mãe. Ela sempre esteve do meu lado, mesmo eu estando errado. Sou uma pessoa procurando aprender todo dia, mas agora, depois de passar tudo que passei, se pudesse voltar 20 anos e me dar um conselho, eu diria a mim mesmo para procurar Jesus. Automaticamente todas as outras coisas viriam junto", reflete. 

 

Quando deixar a prisão, ele pretende retomar o trabalho, onde era reconhecido. "Sei que não será fácil, mas vou recuperar as confiança das pessoas, cuidar da minha família, tenho um filho de cerca de um mês, tentar reconstruir tudo", conclui. 

Data: 29/11/2025 - 18:08

Fonte: Mara Steffens

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